Por muito tempo esse espaço esteve parado...
Foi criado para percorrer um determinado caminho mas acabou esquecido e abandonado na primeira curva.
Que esse caminho floresça, ainda que não siga
exatamente o traçado original.
Seja nosso (a) companheiro(a) nessa jornada, se assim o desejar.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------Heloisa
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O reflexo das nossas buscas, encontros e desencontros pelos caminhos da Vida.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Entre o algoz e o guerreiro


Curiosa figura que se envaidece e se boicota. Estranha criatura que mesmo diante de um caminho que sabidamente leva à dor e ao sofrimento é capaz de repetir o percurso, ainda que com novas trilhas à frente. Exótico personagem que precisa do confronto com o que incomoda para ser capaz de enxergar o nirvana dos dias bons. Intrigante elemento que sedia em si a batalha cotidiana entre o algoz ferrenho e o imbatível guerreiro.

De quem estou falando? De mim e de você. Daquele ou daquela que dorme ao seu lado. Do que senta na cadeira da frente, que caminha na rua, que trabalha na mesa de trás. Daquele que, como nós, é capaz de buscar a rua sem saída mesmo quando nosso GPS protetor acende a luz vermelha de alerta e nos lembra sobre para onde aquela escolha nos leva. Daquele que, como nós, precisa mergulhar no poço escuro dos pensamentos ruins e sonhar todos os sonhos equivocados, dando a eles um roteiro completo, com começo, meio, fim, cenário, iluminação e personagens, para ser capaz de viver o prazer bom de simplesmente abrir os olhos e perceber que tudo era tão somente um sonho. Daquele que amarga a construção de um arranha-céu de desculpas para não fazer aquilo que lhe faria bem, mas que se feito tira a possibilidade de viver a sensação efêmera do ter pena de si mesmo.

É realmente curioso que precisemos tanto do erro, do equívoco, do tropeço para sermos capazes de despertar em nós mesmos o guerreiro soberano que nos protege e se faz forte frente ao algoz que construímos. Que precisemos tantas vezes nos travestir de personagens cujas roupas nos apertam, espetam, desconfortam para entender que não fomos escolhidos para essa peça, que estamos no teatro errado, que o diretor nem mesmo nos quer ali. Que precisemos do incômodo do olhar atravessado, da mal querência do outro, da ausência de prazer e realização para sermos capazes de reagir, tomando as rédeas do nosso próprio percurso e encontrando o lugar onde podemos ser aquilo que nosso guerreiro nos lembra: somos protagonistas de nossas próprias vidas.

Copiar é da natureza humana e errática. É copiando que aprendemos a andar, que entendemos a dinâmica do fazer força para levantar após a queda, independentemente dos arranhões que fazemos nascer nos joelhos. Mas é crescendo que entendemos que poder andar com as próprias pernas é também o início da grande aventura onde as escolhas são também a trilha para o encontro com nosso algoz ou nosso guerreiro.

Não há guerreiro imbatível, mas não existem algozes super-poderosos. Não nascemos com um DNA desenhado para a vitória eterna, mas também não trouxemos cravada em nossos gens a kriptonita que nos fragiliza e impede nossa reação. Carregar a pedra verde dentro do bolso e fazê-la razão para que nosso guerreiro se intimide diante do algoz Lex Luthor é também uma escolha. Sim, somos todos estranhas criaturas, exóticas figuras, estranhos personagens que precisam do algoz para fazer despertar o guerreiro que existe em nós.

Importante é não esquecer que nessa contenda não existe platéia, não existem jurados, não existe nem mesmo um código de leis. Somos nós com nós mesmos. Se é assim, porque precisamos do algoz para nos fazermos guerreiros?


Veronica Cobas

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