Por muito tempo esse espaço esteve parado...
Foi criado para percorrer um determinado caminho mas acabou esquecido e abandonado na primeira curva.
Que esse caminho floresça, ainda que não siga
exatamente o traçado original.
Seja nosso (a) companheiro(a) nessa jornada, se assim o desejar.

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O reflexo das nossas buscas, encontros e desencontros pelos caminhos da Vida.

sábado, 7 de maio de 2011

Quando mães viram filhas


Quantas vezes quem cuida de seus pais (ou de um deles) não passa por momentos de exaustão e de estresse ao cuidar de um idoso, de uma idosa dependente. E o que é pior, ninguém se prontifica para ajudar, ninguém da família pergunta se precisa de ajuda ou de dinheiro para fazer frente às enormes despesas. Ninguém.
Vinte quatro horas por dia, sete dias por semana, doze meses por ano. Sem folga semanal, sem feriadão para descansar, sem férias: cuidar, cuidar e cuidar… E o que é pior, uma situação que, em curto e médio prazo, não há solução.

Àquelas que são mães de suas mães (ou de seus pais) fica o nosso abraço carinhoso nesse dia.




Texto de Rodrigo Alves de Freitas

Quando não passava de um adolescente inoportuno, costumava azucrinar minha mãe dizendo que nunca iria me casar. Afinal, na mente de um jovem ainda mal saído das fraldas, não havia o menor sentido em perder a liberdade de uma vida toda que estava à minha frente com coisas como esposa, casa, responsabilidade e, principalmente, filhos. Como adolescente, via todo o mundo à minha frente, toda uma vida de oportunidades e maravilhas a descobrir.

Hoje, cerca de quinze anos depois, estou às voltas com ursinhos de pelúcia, pijamas coloridos com estampas de bichinhos e beijos lambuzados de boa noite. Mantendo-se fiel aos princípios dos meus tempos de menino (embora não por vontade própria) ainda não casei tampouco tive filhos; melhor dizendo, ganhei sim uma filha: uma meninona mimada e birrenta de setenta e seis anos. Minha mãe.

O tormento da dona Aparecida tornou-se profético: antes que eu pudesse tomar as rédeas de minha vida e constituísse minha própria família, a doença de Alzheimer se encarregou deste processo e, do dia para a noite, me presenteou com uma linda garotinha de cabelos prateados desgrenhados, que anda serelepe por toda casa, sempre à procura da próxima traquinagem a ser feita ou de um colinho confortável (especialmente se este for seguido de um bom cafuné). E eu, que jamais consegui me imaginar no papel de pai, me vi na obrigação de saber as respostas para todos os “porquês”, a amarrar os cadarços dos sapatos (sempre com um nó duplo para que minha “filha” não tropece), a entoar canções de ninar e a abraçá-la bem firme durante uma noite chuvosa para afastar os trovões.

Se por um lado o Alzheimer tolheu minha mãe, por outro me faz aprender diariamente todo um universo de coisas novas: que toda criança de setenta e seis anos gosta de palavrões, de piadas escatológicas, de brincar com o cachorro e de assistir desenhos animados; que uma criança de setenta e seis anos não entende como aquele bonitão que era mocinho na novela anterior pode ser o vilão tão malvado da atual; que, ao contrário do que elas dizem, mães tem sim um filho preferido entre todos e deixam isso bem claro quando não há mais censura para frear seus pensamentos; aprendi que é fácil mimar uma velhinha tal qual uma criança.

Aprendi que minha mãe pode chamar a mim de “papai” e a minha irmã de “mamãe” e nós dois acharmos isto a coisa mais natural do mundo.

Mais importante que tudo isto foi entender que com a idade a noção de paternidade e maternidade subverte-se; que ao olhar para o nosso relacionamento desta forma, aceitando a inversão de papéis como um fato e não um fardo, libertei-me da prisão do sofrimento que caracteriza a imensa maioria dos cuidadores para ser, por que não, feliz.

Hoje me sinto realizado com a tarefa que me foi dada; mesmo após muitas noites sem dormir, mesmo nos momentos onde parece que não há meios de desviar dos obstáculos que surgem no caminho (exatamente como em um pai de primeira viagem) sou capaz de manter a serenidade e a clareza de idéias necessárias para cuidar da minha criança preciosa. Não mais passo meus dias sofrendo com a doença, não mais choro por ter perdido a minha mãe tão querida: tenho a alma leve e vibrante, exatamente como aquele adolescente turrão de quinze anos atrás. Como o Rodrigo do passado, sei que a vida toda ainda está a minha frente, só que agora eu tenho companhia nesta jornada e não caminharei mais sozinho.

E para todos os pais de seus pais mundo afora, só tenho uma coisa a dizer: por mais excruciante e inglória que seja a tarefa de cuidar da minha própria mãe, não abriria mão da minha paternidade por nada neste mundo; Dinheiro algum pode pagar a emoção de chegar em casa todos os dias e ser recebido com um sorriso que desconcertaria o mais durão dos homens, que faria manteiga derretida até do mais cruel dos ditadores; a alegria genuína e ingênua, estampada no olhar daquela mulher que um dia me acalentou e me protegeu, é a maior de todas as recompensas, é a confirmação de que estou no caminho certo, como pai de minha própria mãe.

Mesmo depois de todas as dificuldades, de todos os momentos difíceis que passamos, ficaram apenas as boas lembranças e as saudades...
Fique bem, minha mãe, onde quer que você esteja...
Heloisa

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