Por muito tempo esse espaço esteve parado...
Foi criado para percorrer um determinado caminho mas acabou esquecido e abandonado na primeira curva.
Que esse caminho floresça, ainda que não siga
exatamente o traçado original.
Seja nosso (a) companheiro(a) nessa jornada, se assim o desejar.

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O reflexo das nossas buscas, encontros e desencontros pelos caminhos da Vida.

domingo, 19 de junho de 2011

O místico e o artista

Entre os anos de 1800 e 1805, sexagenário e bastante enfermo, o artista mineiro Antônio Francisco Lisboa (1730-1814) - o Aleijadinho - realiza o conjunto de esculturas monumentais que marcaria definitivamente sua obra. 

Seu último projeto de vulto, os 12 profetas em pedra-sabão de tamanho quase natural, feitos para o adro dianteiro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo, em Minas Gerais, são um dos exemplos mais contundentes do desenvolvimento do barroco  no Brasil, e talvez a sua última grande manifestação.


Da mesma forma que o artista transforma a pedra, as cores, os fatos e as notas musicais em obras primas para o patrimônio cultural da humanidade, o místico transfigura a matéria bruta do cotidiano em verdadeira arte. 

O místico é um artista dos fatos cotidianos ou da história humana. Transita pelas estradas do mundo como um peregrino em busca de algo sólido e definitivo. No mármore indefinido da trajetória humana busca identificar os caracteres deixados pela mão invisível dos anjos.

A vida é sua matéria bruta, constituída de amores, dores e temores, sonhos, lutas e esperanças.  Com freqüência, é submetido à travessia de áridos desertos e mutismos intransponíveis, como cego tentando vencer a mais densa escuridão.

O caminho não é espontâneo. Exige esforço, disciplina e persistência. Exige intensos momentos de silêncio e escuta. É uma tarefa longa e extremamente laboriosa. Tarefa que começa e recomeça a cada dia. Nele há avanços e recuos, luzes e sombras; desertos prolongados, seguidos de deslumbrantes iluminações. Como num dia instável, o sol se revela e se esconde. O importante aqui não é tanto obter a água viva que nutre e mata a sede momentânea, mas aprender o caminho da fonte.

Enquanto o artista ao terminar sua obra volta a ter sede e parte para nova criação, o místico é guiado por uma sede que o eleva a patamares cada vez mais altos, ou a profundezas cada vez mais incógnitas. Dessa contínua superação dos próprios limites, forja-se o artista e o místico. Ambos, por vias diferentes e muitas vezes convergentes, engendram uma estética que confere beleza, sabedoria e sentido à existência humana.

Todo artista tem algo de místico e todo místico tem algo de artista.

Adaptado a partir do texto de Pe. Alfredo J. Gonçalves, 
                                                                                     


Heloisa

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